À vontade do freguês
Terça-feira, 31 de Agosto de 2010
(Imagem: Vamos todos ganhar)
Uma extensa peça no Público de ontem aborda a questão do encerramento das escolas com menos de 20 alunos. Entre as diversas opiniões expressas por encarregados de educação das crianças afectadas, destacava-se uma deste tipo: “A escola que agora encerra tinha poucas condições. A nova escola está melhor apetrechada”.
A suposta correlação que indica que a pequena dimensão das escolas provoca insucesso escolar é tão válida como pensarmos que a pequena dimensão das aldeias provoca o envelhecimento dos seus habitantes… De qualquer modo, por este andar, já deve faltar pouco para uma medida administrativa de encerramento compulsivo e transferência dos seus habitantes para "centros habitacionais com melhores condições". Até lá, o lamentável processo de encerramento das escolas lá vai prosseguindo com meandros inacreditáveis.
Os partidos precisam de uma disciplina mínima com vista a terem um mínimo de coerência. Compete portanto aos seus militantes o seu cumprimento, sem espartilhos, sem dramas, sem auto-censura. É normal que determinados militantes quebrem as regras do contrato e se tornem incómodos para o partido. Estranho seria se tal não acontecesse em organizações políticas e que se querem próximas da democracia. Neste contexto, o recurso à expulsão, sobretudo nos partidos do centro político onde sempre cabem tantas sensibilidades e onde a disciplina é algo desejável mas dificilmente mandatório, acaba por ser uma pena in extremis.
As duas últimas semanas foram férteis na confirmação da degradação da Justiça Portuguesa junto da opinião pública. E se o adiamento da sentença do caso Casa Pia foi recebido com um “outra coisa seria de estranhar”, as novidades do processo Freeport assumiram contornos bem mais bizarros. Como se a gestão do caso já não representasse uma profunda nódoa, os desenvolvimentos recentes vieram descredibilizar ainda mais o sistema de justiça que nos rege.
Temo sempre pela sobrevivência do Correio da Manhã por estes dias de Agosto. É que não há mês em que o jornal sinta uma concorrência tão feroz por parte de todos os outros órgãos de comunicação social. Veja-se apenas o caso do Telejornal da RTP de ontem: ele é bombeira que morreu no combate a incêndio, ele é autocarro que se despistou no Barreiro provocando vítimas, ele é mulher acusada de vandalismo num restaurante, ele é criança que morreu carbonizada, ele é choque de navios na Índia, ele é acidente de autocarro na Bolívia com diversas vítimas mortais.
A propósito das recentes notícias sobre diamantes de sangue envolvendo Naomi Campbell, a Suzana Toscano da Quarta República sublinha e muito bem que a presença da supermodelo está a abafar o julgamento do ex-presidente da Libéria, Charles Taylor, no tribunal de Haia. No fundo, os média estão mais interessados no depoimento da supermodelo e do contra depoimento de Mia Farrow do que nos crimes contra a humanidade perpetrados por um dirigente sanguinário. É um facto.
Ao mesmo tempo que as notícias consecutivas sobre o caso Freeport vão queimando em lume brando o primeiro-ministro, Passos Coelho continua recolhido da ribalta. Depois um período pré-férias que não correu muito bem com alguns tiros no pé, este silêncio do líder do PSD só o favorece. Vai uma aposta em como as próximas sondagens darão uma subida para o partido laranja?
Apesar de achar duvidosos e pouco transparentes os regimes jurídicos encontrados para enquadrar determinado tipo de entidades, percebo alguns dos objectivos positivos por detrás de tais regimes. O caso das fundações, públicas e privadas, é um exemplo a este respeito, nascendo como cogumelos nos sítios mais inimagináveis. Assim sendo, o mínimo que se pede é que o Estado tenha a mínima capacidade para não se deixar enganar por este tipo de regimes. No entanto, como se mostra aqui, parece existir um total descontrolo a este respeito.
Depois de alguns dias que correram bem a Sócrates, o regresso em força do caso Freeport vai voltar a fazer-lhe mossa. Certamente devido ao levantamento do segredo de justiça, o caso tem conseguido manchetes diárias. Tendo apenas como exemplo o Público, eis o roteiro da semana:
As reacções negativas às afirmações de Pinto Monteiro não se fizeram esperar. Da oposição em coro aos constitucionalistas, foi consensual a crítica à tentativa de desresponsabilização do Procurador-Geral da República. Do leque de reacções, apenas surpreenderam os aplausos vindos do PS. As afirmações de Pinto Monteiro podem parecer-lhes convenientes à primeira vista, mas apoiar-se abertamente numa figura descredibilizada e que já demonstrou inúmeras vezes a sua tendência para a trapalhada revela, em última análise, um indisfarçável desespero de causa. Não havia necessidade...
O governo de Berlusconi pode finalmente estar em causa. A ruptura com Fini está a colocar em causa a estabilidade governativa. Ver artigos do Presseurop e do Público a este respeito. As voltas que o mundo dá: é um ex-aliado de Berlusconi e ex-líder de um partido pós-fascista - que agora se proclama de direita séria e moderna - que está a erguer a bandeira da moralização do sistema contra o indescritível Cavaliere. Only in Italy…
Quanto mais se escava neste caso Freeport, mais disparates se encontram. Tudo parace assumir contornos esquizofrénicos, como se se tratasse de uma mistura explosiva entre a loucura de um filme de Kusturica e o non sense intrigante de David Lynch.
E cá estamos nós em pleno Agosto, no pico da silly season. As catástrofes naturais e a criminalidade já começaram a abrir os telejornais e, depois de um dia de praia e antes de seguir para uma festa de um qualquer bar algarvio, Paulo Portas também já arrancou com os seus comícios em defesa da agricultura e contra os criminosos e delinquentes que tomam conta do país. É oficial: estamos no Verão, yeah!
Como hoje noticia o Público, o combate à evasão fiscal no IRC está ao nível da década de 90. A evasão fiscal continua ser a regra, destacando-se o facto de apenas um terço das 379 mil empresas em 2007 declararam ter actividade suficiente para pagar IRC.
Nestes últimos anos era o comentário político que mais o distinguia. E mesmo com a doença a manifestar-se à vista desarmada, Bettencourt Resendes parece que nunca desarmou. Assim é que deve ser. Maldita doença…© Blogger templates Newspaper by Ourblogtemplates.com 2008
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